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sábado, 9 de janeiro de 2010

Sim senhora

Dizem ser sempre do homem a última palavra na relação. Essas do título.
Hoje quase saiu briga aqui em casa. Tudo por conta de Gabriel, actually.
Foi assim: meu pai dirige uma empresa de comunicação visual, e o principal shopping daqui da cidade por vezes solicita serviços para "nós", conforme meu pai tanto pluralizando eufemiza e ao mesmo tempo se orgulha. Campanhas, promoções, essas coisas. Dessa vez é a campanha de férias do shopping.
Problema: certamente ninguém nunca viu alguém colando adesivo, colocando banners, placas, etc. em um shopping, right? É porque eles sempre pedem para que qualquer prestação de serviço seja, por conveniência, feito fora do horário do expediente deles, ou seja, até 09h30 ou após 22h30.
Além disso, por vezes, por ser um trabalho que leva muito tempo, mas que é simples, meus irmãos e eu ajudamos a aplicar os adesivos. Evita um pouco o pagamento de hora extra. Trabalho escravo?
Enfim, Gabriel, que estava na cidade onde ele estuda até agora há pouco, não iria ter tempo para a  Juliana*. Já vi quando ele ficou de cara amarrada quando Diogo*, gêmeo dele que trabalha com meu pai, falou que precisaríamos ir ao shopping colar adesivos.
Eu não ligo de ir lá, até porque eu estou precisando ocupar minha cabeça. A questão é que eu preciso de um meio de transporte, se eu for. However, eu também acho desperdício se eu for no carro do meu pai, sozinho, sendo que os dois também vão lá.
- Diogo, como que eu vou? O Gabriel me busca aqui, eu vou com você...? Como?
- O Gabriel te pega.

O celular toca.
- Pai, posso ir pra lá depois da meia-noite?
- Mas até lá já vai ter acabado o serviço, Gabriel. 'Tá bom,pode ficar aí, precisa ir não. Pode ficar aí namorando. - eu já sei que quando meu pai fala com ironia, é porque ele está contrariado e BEM nervoso.
- E agora? - perguntei.
- Precisa ir não - respondeu Diogo, rispidamente.
- Tem certeza, Diogo? Nossa, que confusão, hein, mãe? - eu acho que, só de olhar, minha mãe entendeu o que eu estava pensando. - Eu vou com você, Diogo. Só me avisa quando estiver saindo.

Claro, eu sei que Gabriel passou a semana inteira lá na cidade onde ele estuda (atrasou por conta das "férias suínas", conforme eu caçoei outro dia), e quer to rest his bones with her, mas um diazinho a menos não mata ninguém, ce n'est pas vrai?
De fato, eu acabei de chegar de lá, 02h30. Nós voltamos quando a gente não pôde fazer mais nada. Ele está aqui na minha frente, no PC daqui de casa, jogando. Mal ele sabe que eu estou aqui falando mal dele escrevendo!

Já não foi dessa vez que saiu gente de cara amarrada aqui em casa por conta disso. Gabriel passou o natal com a família dela, muito a contragosto. Outra cidade (Brasília), gente que ele não conhecia... já viu, né? Daí, como dia 1º de janeiro é aniversário do meu pai, inevitavelmente, réveillon é aqui em casa. Claro que Gabriel não deixaria de virar 2010 aqui, dado que ele não passou o natal aqui.
Mas como tudo tem um "mas", Juliana é coiffeuse, sabe? Imagine: salão lotado, trabalhando feito louca, porque todas querem se emperiquitar pras festas do fim de ano... ela estava muito cansada, e não queria saber de festa. Claro, queria rest her bones with him.
Pergunta quem veio de cara amarrada aqui pra casa? Voilà.

Bem possivelmente eu ainda vou pagar pelo que eu estou falando aqui, mas custaria tanto assim a eles respeito tanto mútuo quanto próprio? Olha como seria muito melhor: meu irmão passava o natal aqui, ela descansava no réveillon. Não teria briga pro meu irmão ir ao shopping agora há pouco, para trabalhar. Nossa, vou parar aqui senão a lista ficaria infinita.
Namorados siameses? Eu dispenso.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Nenenzinho da mamãe

Odeio quando isso acontece comigo - quando me veem as ideias pra escrever justamente quando eu estou quase pegando no sono. Mas daí eu perco o sono e... não tem jeito, eu tenho que vir pra cá.

Já estou em São Carlos, incrivelmente. No dia 1º de janeiro, já arrumei as malas e saí de carro. Sozinho. Chovendo às baldadas, enfrentei a estrada. Potencialmente cheia por causa do feriado, perigosíssima por causa da chuva. Por sinal, aquaplanei duas vezes a 120 km/h. Mas que diferença isso faz, né? Enfrentei a estrada porque algo muito pior estava acontecendo naquela que foi minha casa por dezessete anos.

Não estava mais suportando não só o tédio, mas a simples presença do meu irmão mais velho, o Paulo*. Toda e qualquer palavra que ele falasse e que fosse a meu respeito ou que fosse direcionada pra mim tinha alguma farpa. Por exemplo, meus primos vieram pra cá também, e resolveram ir a um barzinho. Já completamente saturado só da presença do Paulo, falei que não iria. Porém, escutei uma conversa entre ele e minha mãe:

- Mas eu vou levar multa! Como que tá essa coisa aqui em Uberaba? - claro, ele estava falando sobre o fato de dirigir alcoolizado. - Eu não vou se o Gustavo não for!

[sim, cansei dessa vidinha de esconder meu nome.]

Isso, Paulo, muito bom! Você só vai se o seu irmão mais novo, que não bebe, não fuma e não trepa, for o motorista panaca da rodada. Claro, deixa pro Gustavo, o chofer eunuco de sempre.

A hora que eu me segurei muito e soquei a parede pra não socar a cara dele foi quando eu estava vendo TV e ele me chama na cozinha. Eu, idiota que sou, fui lá.

- Frita aí pra gente - e apontou pra um saco plástico com salgados congelados.

- Como é que é?! Não que eu estivesse ocupado, mas você teve a capacidade de me chamar aqui só pra fritar esses salgados "pra gente"? Você bem sabe que eu não estou podendo comer isso! Ou seja, você quer é que frite essa merda pra você!

Mesmo assim, peguei a caçarolinha em que costumava há séculos fazer isso. Peguei óleo usado, só de pirraça. Fiz de um jeito que eu tinha certeza que daria errado, também de propósito: coloquei cinco salgados de uma vez, só pra esfriar o óleo e o salgado ficar todo encharcado e mal frito. Mesmo ele, que não sabe cozinhar quase nada, viu que o óleo não estava quente e comentou:

- Mas tem que esperar o óleo esquentar... - com aquele tom condescendente que só ele tem. Cocky.

- Pra quem pediu pra eu fritar porque supostamente não sabia, até que você tá sabendo demais, não?

Não sei se foi por acaso, mas Gabriel* me chamou, falando que ia sair pra ir em algum lugar que nem lembro onde. Que ele fosse pro inferno, desde que isso me afastasse do Paulo, eu topava qualquer coisa. Peguei os cinco salgados mal-fritos com a escumadeira e joguei direto no lixo. Descontei toda a raiva que eu sentia na parede logo antes do meu quarto. Os nós do punho arroxearam na hora.

- Por que ele tem que ser desse jeito, Gabriel? Já faz vinte e dois anos que eu aturo esse crápula, e ele não muda! CHEGA! Eu não suporto mais! Vou embora pra São Carlos amanhã, nem que seja pra eu ficar a toa lá!

Só cheguei em casa mais tarde, porque Gabriel e eu precisamos passar na loja do meu pai pra buscar minha mãe, que estava sem carro. No caminho, Paulo ligou no celular dela.

- Ele estava perguntando se o Gustavo estava com você, Gabriel, porque começou a chover forte e ele poderia ter ido caminhar, daí ele poderia sair com o carro do Gustavo pra buscar ele no Piscinão.

- Agora ele me vem com dozinha, é? - e a hipocrisia tá mandando um beijo.

- Mas o que aconteceu?

- Ah, a Sra conhece o Paulo, né? - respondeu Gabriel por mim, encolhendo os ombros.

Não cumpri minha promessa, já que isso aconteceu antes do réveillon. Porém, não troquei um pio com o Paulo desde então. Nem desejei "feliz ano novo" pra ele.

E nem ele pra mim.

Conversando com o Diogo* sobre isso, ele me lembrou da briga entre meu pai e o meu tio, de que eu já falei aqui. Só foi apaziguada aos pés do túmulo da minha avó, e ainda assim não fez muita diferença (desculpa a franqueza).

- Olha, Diogo, eu não posso parar pra pensar no que nossos pais vão sentir com essa possível briga entre mim e o Paulo, porque a vida inteira eu pensei nos outros e só me fodi. Infelizmente, vai ter que ser desse jeito. Vocês bem sabem que não é frescura minha.

- Tanto é verdade que ele veio sozinho. Ninguém quer ficar perto dele mais.

- Então, caramba! Só que eu não estou suportando mais, não dá.

 ---

Enfim, brigas de família à parte, o fato é que eu já estou em São Carlos por causa dele. Só que, mesmo eu reclamando para meus outros irmãos, sempre vai soar frescura minha. Porque, no final das contas, pra família inteira eu sou o nerd-eunuco-sistemático. Nunca vi! Parece que, enquanto eu não chegar ostentando uma namorada pra família, eu não vou ser respeitado lá dentro.

E é ostentando mesmo, com todas as letras. Por exemplo, quer falar que meus pais estão achando ruim desse rolo todo com meu irmão Diogo sendo o potencial pai da filha mais nova da ex-namorada periguete dele? Nada! Tenho certeza que, lá no fundo e mesmo que eles próprios não saibam, eles estão é achando bom, porque, afinal de contas, meu irmão é "pegador".
Outro exemplo é o gêmeo dele: por mais que meus pais escutem o Gabriel reclamando da namorada dele e falem mal dos dois pra mim (o que eu tenho a ver com isso?), no final das contas, meus pais estão é orgulhosos dele. Por mais que... bom, deixa pra lá.

Daí, por eu não ter namorada, não ter um emprego formal com carteira assinada, eu ainda sou o nenenzinho da mamãe, inocência pura.

Agora é a ironia que tá mandando beijos.

Sim, família, eu trabalho! Talvez se eu estivesse ralando umbigo num balcão e ganhando uma merreca, vocês reconheceriam isso mais como trabalho do que meu mestrado. Mas não, né, eu estou "só estudando". Eu posso ficar mais tempo em casa, porque eu estou "só estudando". A vida inteira eu só fiz isso, qual é a diferença agora?

Sim, eu faço piadas sujas, tenho pensamentos libidinosos. Sou humano, oras! E como tal, também tenho paciência limitada, apesar de vocês acharem que não.

Eu nunca fui eu mesmo. E a culpa é toda minha, after all. Adianta eu falar que cansei? Já fiz isso umas três vezes só aqui no blog, pelo que eu reli por cima. Mas se eu mostro só as pontinhas das garras...



No fundo, mas bem lá no fundo mesmo, eu só preciso ser mais indecoroso, perder a vergonha, tanto no sentido de papas na língua quanto no que cês tão pensando.

A questão é: como?

sexta-feira, 25 de março de 2011

Agora, Inês é morta

Eu sei que, pra variar, tá um texto muito grande, mas eu garanto que vale a pena. Eu tô quase é começando a escrever um livro truly, se continuar assim...

Não sei se já contei isso aqui; acho que não. É história antiga, tão antiga que eu nem era nascido, ou era novo demais pra me lembrar dos meus early years.

Eu tenho irmãos gêmeos. Não gêmeo meu, mas somos quatro filhos, conforme eu já contei aqui: o Paulo*, mais velho; o Diogo* e o Gabriel*, que são os gêmeos; e eu, caçula. Quando Paulo tinha dois anos, os gêmeos nasceram. Prematuros (acho que foi de sete meses), por causa da pré-eclâmpsia. É, cês sabem: gravidez de gêmeos, o risco de hipertensão é maior, e tal. Por isso, o médico antecipou a cesariana.
Diz minha mãe que sentiu as mãos e os pés formigando durante o parto. As enfermeiras conversaram com ela, perguntando se estava tudo bem. Mas ela não disse estar sentindo nada de diferente, à exceção dos pés e mãos formigando. Diogo nasceu com menos de dois quilos; Gabriel, um pouco mais que isso.
No outro dia, ela foi à maternidade.
- O QUE A SENHORA ESTÁ FAZENDO AQUI?! - disse o médico que fez o parto, ao ver minha mãe com a cara colada no vidro.
- Uai, só vim ver os meninos...
- A senhora teve um ataque cardíaco no parto, não te falaram isso? E a senhora subiu todas essas escadas! Volte já pra casa! - e então, o médico pediu às enfermeiras que trouxessem uma cadeira de rodas.
Sim, agora faz sentido. As enfermeiras conversavam o tempo todo com ela durante o parto, perguntando sobre o que ela sentia, para que ela mantivesse a consciência, apesar da anestesia e do ataque cardíaco.
E assim, na outra consulta, o médico sugeriu que os dois bebês prematuros ficassem sob observação constante de enfermeiras, que cuidariam exclusivamente deles, já que foi uma gravidez e um parto complicados. Fazer o quê, meus pais contrataram três, por um período de 8 h cada uma, diariamente, até que eles pudessem sair da maternidade.
Gastaram uma fortuna. Meu pai teve que vender o carro, a filmadora (meu pai já foi cinegrafista, desses de casamentos, e tal). A situação financeira dos meus pais à época já não era lá muito boa - ele era sócio do irmão dele, que era muito pão-duro pra investir na loja, e ficavam estagnados, sujeitos à inflação e possível consequente falência da empresa. Ficaram mais de quinze anos sem falar um com o outro, por causa de uma briga decorrente dessa sociedade, que ocorreu alguns anos mais tarde.
Mas isso é outra história.
Enfim, voltando. Ainda bem que meu pai contratou essas três enfermeiras, porque senão Diogo não estaria aqui. Ele teve uma parada cardiorrespiratória ainda na maternidade. Pequeno e frágil como era (só 1,7 kg), Diogo não sobreviveria.
Também devido às complicações da pré-eclâmpsia, o médico sugeriu que, mais tarde, minha mãe fizesse uma ligadura das trompas. Outra gravidez dessa poderia matá-la. Mas ela não fez. Com que dinheiro?
Ainda assim, com meu pai quase indo à bancarrota e com o médico sugerindo técnicas de esterilização, nova gravidez. Uma irresponsabilidade tamanha! Depois de tudo o que passaram, conscientes do risco... Mas quem sou eu pra falar alguma coisa, não é mesmo? Não só por serem meus pais, mas também porque quem nasceu dessa gravidez fui eu. Por conta disso, eu suspeitava, desde que eu soube das truths of the life, de que a última gravidez da minha mãe foi... indesejada, digamos.
E eu acho uma situação um tanto estranha, porque eu nunca vi minha mãe contar história alguma dessa época. A única coisa que sei é que eu fui o que nasceu "maior" dentre nós quatro (mais de 4 kg, uma das origens da minha obesidade na infância e adolescência).
Aliás, eu sei de outra coisa, sim. Uma vez, nas férias do meu primeiro ano aqui em São Carlos, Ademir*, o engenheiro que cuida da manutenção das máquinas da loja do meu pai o convidou pra almoçar num restaurante pequeno, anexo a um hotel fazenda bem simples, perto de um centro espírita conhecido lá da região de Uberaba. Fomos meus pais e eu.
Um casal conhecido do Ademir estava lá também. Tinham dois filhos; um dos quais ainda era bebê.
- Nossa, quatro filhos! E você é tão jovem... Mal dou conta dos meus dois! - tagarelou a mulher, com a curiosidade de mãe inexperiente. E ficou perguntando aleatoriedades sobre essa época.
- Mas diga lá, foram todas... planejadas?
Parada dramática. Meus pais se entreolham. Eu engulo em seco, apesar do prato à minha frente e da fome de um almoço atrasado de domingo.
- É... - diz minha mãe, totalmente sem-graça - o último foi "escapulido".


- Vou dar uma andada - eu disse, logo que terminei de almoçar.
O hotel fazenda tinha um pomar. Vagando entre as mangueiras de mangas fora de época, ou perto da piscina com aquela molecada, que logo pegariam um resfriado por causa do vento que traria chuva logo mais... parei pra pensar.
Que situação embaraçosa foi para a minha mãe! Afinal, o fruto da última gravidez dela estava ali ao lado, um quase homem feito de um metro e oitenta e três.
Adianta eu me desapontar com o fato de eu saber que, a princípio, meus pais não queriam ter outro filho depois dos gêmeos? É óbvio que eles não queriam! Eles quase faliram por causa da quantidade de filhos que tiveram!

Voltando àquela história da sociedade: logo que meu pai brigou com meu tio, ele ficou muito tempo "desempregado" (sem nenhuma fonte de renda, entenda-se; afinal, se ele era sócio, ele não tinha um emprego de carteira assinada fazia tempo). Nós quatro estudávamos em escola particular. Eu estava na segunda série.
Coisa que eu soube anos depois foi que meus pais explicaram a situação financeira dificílima por que eles estavam passando à direção da escola, que negociou manter dois de nós (Paulo e eu) no colégio, mesmo sem pagar as mensalidades, sendo que seriam pagas quando a situação lá em casa melhorasse. Diogo e Gabriel passaram a estudar em escola estadual, o que durou dois anos. Acho que a direção aceitou essa negociação porque nós mantínhamos notas bem altas, enquanto que Diogo e Gabriel, nem tanto. De qualquer forma, foram dois anos de pindaíba forte.
Várias vezes vi minha mãe chorando na sala àquela época. Ela nunca me explicou o motivo, mas hoje eu entendo: "sacrificar" a educação escolar dos gêmeos por falta de recursos certamente não era algo fácil de suportar.
Como é que eles explicariam tudo isso a uma criança de seis, sete anos? Não que tenha havido uma conversa séria, em que tudo isso foi explicado mais tarde - eu só fui juntando as peças ao longo dos anos.

Não adianta: agora, Inês é morta. Ou melhor, eu sou vivo, e existo. Um filho de uma gravidez indesejada. Imagino que se deve ter um espírito tão... elevado, um grau de maturidade tão grande pra se aceitar essa vida intrusa, não planejada, indesejada, e ainda amá-la como um filho deveria ser amado, movendo mundos pra garantir alguma dignidade, um mínimo de conforto, um futuro a ele, que...

Realmente, nós nunca vamos ser suficientemente gratos a nossos pais. Eu, pelo menos.

domingo, 13 de setembro de 2009

Chumbo trocado não dói, já dizia minha vó

Dois posts neste domingo por dois motivos: falta do que fazer hoje e excesso do que fazer amanhã.
Juntamente com a história de Clara, que contei bem resumidamente, aconteceu outra história, igualmente resumida nesse post. Na verdade, acho que as duas histórias se misturaram, mesmo que Clara nem ao menos saiba quem seja Fabiane*.
- Tem uma amiga minha que disse que quer te conhecer - disse meu irmão Gabriel, quando estávamos em casa, em um final de semana que voltei para minha cidade natal.
Fabiane também fez parte dos meus textos que joguei fora. Conforme eu lembro de ter escrito, eu tive três sensações ao mesmo tempo em reação ao meu irmão. A primeira foi uma incompreensão: como alguém pode querer conhecer alguém "quadrado" que nem eu? A segunda, uma vontade de falar para ele parar de fazer graça - não é porque eu estou encalhado solteiro que você pode jogar isso na minha cara. A terceira, claro, foi aquela acariciada no ego.
Nosso primeiro contato foi via Orkut e MSN. Fabiane sempre lançava aquelas indiretas mór, praticamente se jogando pro meu lado. Fato: isso assusta qualquer homem, por mais "moderninho" que ele seja. E logo pra mim, que não sou nem um pouco.
E eu tentanto ser bonzinho, só dava um sorriso amarelo :D em resposta via MSN. O que eu faria, se nós só conversávamos pela internet, e no momento minha cabeça estava pensando em Clara?
Sem querer, ela soube, por mim, do meu número do celular. Ela me mandou algumas SMS nesse meio-tempo, e sempre com o mesmo teor.
Eu não aguentava essa vida dupla. É até engraçado isso, um triângulo amoroso que nunca aconteceu de fato.
- Fá, chega! - finalmente falei.
Desembestei a falar que eu estava passando por um momento ruim (e realmente o estava, não só por causa de Clara, mas também por vários outros motivos), e que eu não era o melhor tipo de pessoa para me relacionar, por eu ser quadrado demais.
Não adiantou. Dei sumiço no Orkut, no MSN, e tudo mais. SMS eram comuns. Na última mensagem que recebi, eu lembro de ela ter escrito algo como "mesmo que esteja incomodando". Ou seja, ela queria um ultimato meu.
Ah, é? Então é guerra. E fiz a maior cagada da minha vida amorosa que nunca existiu: mostrei meus textos para ela, pois era uma maneira rápida de dizer tudo que eu passei.
- Era isso que eu queria saber - ela disse, talvez em prantos. Não sei; foi por MSN.
Algum tempo depois, eu soube, sem querer (Gabriel tinha que soltar a pérola perto de mim, enquanto conversava com um amigo e eu estava perto), que ela estava viajando na casa do namorado.
Pô, façamos as contas: quanto tempo demoraria para um relacionamento chegar ao ponto de "viajar para a casa do namorado"? E faz quanto tempo desde que eu mandei os textos para ela?
Ah, tá. Então ela só queria um ultimato meu porque o triângulo na verdade era um quadrilátero.
Parabéns pelo troco muito bem-dado, Fabiane. Desculpe se te fiz algum mal, se brinquei com seus sentimentos por acidente, não tive intenção. Seja feliz com o seu amado. Eis aqui um peito indiferente e feliz por você.

domingo, 18 de setembro de 2011

Documentos

Semana passada foi a formatura do Gabriel*. Voltei pra casa, fiquei lá uma semana.
Voltei feliz, mas com uma ideia fixa na cabeça: eu não quero continuar nessa enrolação e não quero mais me encontrar com a Di.
Eu sei que é de assustar, ainda mais depois de tudo isso que a gente passou junto, do que eu escrevi. Sim estou curtindo, mas é que não dá, não sei explicar. Os dez anos de diferença pesaram aqui: logo logo ela vai ter terminado o doutorado, e eu mal vou ter terminado o mestrado.
Também tem o fato de ela ter que fazer uma viagem internacional de quase 5 meses daqui a pouco tempo. Não adianta, eu sei que distância mata. Nem me venham com mimimi clichê - já vi muita gente teorizando sobre isso e um mês depois já tinham terminado relacionamento de mais de anos. À distância, pra piorar. Quanto mais um casinho ridículo desses.

Ressalto: não estou falando aqui que eu tô querendo "aproveitar a vida", porque eu nunca fui de esbórnia, cês bem sabem. Aliás, daqui a pouco eu escrevo uma coisa sobre isso.

No terceiro ou quarto dia que eu estava em casa, Di me mandou uma mensagem no celular. Ia responder meio que por educação, só - querer responder, mesmo, eu não queria. Ah, tudo bem, daqui a pouco eu respondo. Quinze minutos depois, a bateria do meu celular acaba. Ah, tudo bem, eu ponho pra carregar e...
Ops! Cadê o carregador? Ih, está a 280 quilômetros daqui, esqueci em São Carlos. Ah, tudo bem, eu respondo pela internet. Daí minha casa fica sem internet pelo resto da semana.
Ótimo.
Na mensagem: "Pessoa ingrata, nem dá notícia, nem um oi! (...)", dentre outros assuntos aleatórios.
E desde quando eu devo dar notícias? Nem pros meus amigos eu fico avisando se eu estou fazendo coisa x ou y, por que eu deveria? Não me sufoque. Não preciso ficar documentando meus passos.
Deixa eu querer fazer isso. Quando eu quiser fazer isso, pode ter certeza que aí sim temos um compromisso.
Engraçado, isso: dar liberdade pra que o outro se sinta na obrigação de contar como foi seu dia. Já escrevi sobre isso antes.

Na formatura do meu irmão, duas grandes decepções, ambas tendo a ver com meu primo Felipe*. Não sei se foi porque ele namorou sete anos e depois terminou, mas hoje ele é um recém-formado bon vivant: gasta quase inteiro o já abastado salário dele com luxos: baladas regadas a bebidas caras, carro esportivo importado, eletrônicos não tão essenciais.
Felipe trabalha na região de Belo Horizonte. Ainda assim, viajou mais de 600 quilômetros só para ir para a formatura do meu irmão.
Decidiu assim, de sopetão: estou saindo de BH pra formatura. Causou vários problemas quanto à quantidade de convites, à ida das pessoas pra formatura, tudo. Acabou por fazer meu irmão comprar um convite em cima da hora, preço lá nas alturas.
A cereja do bolo? Desacompanhado. E sem avisar pra namorada.
Ele sim teria que avisar. Não perca seu tempo em me falar que ele veio pra comemorar a formatura porque eu sei muito que não é esse o motivo. E ele perderia a oportunidade de uma balada com três garrafas de whisky, uma de tequila e uma de vodka importada  [sim, meus irmãos são uns sem-noção] de graça, fora outras bebidas comuns aos outros convidados? Never!
Tudo isso sem nem sentir a cara queimar.

Não que tenha que ser uma obrigação "de documento", mas teria que haver uma... uma... vontade de querer avisar, pelo menos.

E é justamente isso que eu acho que aconteceu entre mim e a Di: não existe ainda essa vontade. E ela atropelou. E eu desanimei muito.
Sei que é muito egoísmo da minha parte querer terminar o que aconteceu com a gente por causa disso - afinal, eu também fiz isso - atropelar as coisas - no começo.

Mas daí...

sábado, 15 de outubro de 2011

Easy

Três pessoas com quem conversei falaram pra eu largar se ser mole, capacho, cachorrinho. Eu sei, eu sei! Mas essas coisas, por mais que os outros tentem avisar, não adianta, o cara não vai mudar fácil (né, Gabriel?). E ainda criticamos quem é tratado como um capacho  - e ressalto que estou confessando que fiz isso! Apontando o indicador, a gente precisa lembrar que tem três dedos apontando de volta pra gente.

Coisas da vida.

Por esse motivo é que eu acho que tem umas coisas por que todo homem deveria passar. Não porque eu ache que todo mundo tenha que ser igual, mas algumas experiências ensinam tanto e tão bem que eu não conheço nenhum substituto.
Uma delas é ser um pouquinho de capacho, sim. Pra dar aquela balançada nas prioridades, pra aprender a valorizar o material. Outra coisa importante é passar pela fase puta. Não pelo lado devasso da coisa, mas pra saber se adaptar a diferentes pessoas. Eu disse ADAPTAR e não moldar, ou seja, sem ter recaídas no capachismo, sem mudar a essência. Até ele chegar no ponto em que vai pensar como a vida bandida é, apesar de movimentada, vazia; e se motiva a mais uma chacoalhada. [gostei do "ritmo" dessa última frase!]

E até agora eu vivi tendo muitas facilidades, não só nesse aspecto. Por exemplo, no final do ano passado, eu falei que falei pros meus pais que eu não queria um carro, e eles acharam que eu tava fazendo cu doce. Mas não. Eu sabia que eu não conseguiria me manter aqui em São Carlos só com a bolsa de mestrado e ser uma pessoa motorizada ao mesmo tempo. Consequentemente, eles continuariam a me mandar dinheiro. Se eu não tivesse carro, daria tranquilamente (um pouco apertado, talvez) pra eu me manter aqui, e independência financeira pra mim seria um bom aprendizado.
Aliás, até o fato de eu fazer mestrado foi assim. Tá, eu já estava cogitando a possibilidade, mas era "carta na manga", e não prioridade. Se eu não conseguisse um estágio, eu me matricularia como aluno especial no mestrado. Pronto, fácil, simples; Tudo bem, eu aprendo a gostar da carreira acadêmica, eu me acostumo a ver meus colegas ganhando mais que o triplo do que eu ganho como pesquisador. Sem problemas. Pelo menos eu não fico desempregado.
Outro exemplo: eu vou ter três oportunidades para conseguir uma bolsa de doutorado: (1) via projeto escrito por mim, minha preferência, não só pelo valor maior da bolsa; (2) via projeto do meu orientador, onde não sou avaliado e é praticamente impossível eu não conseguir, visto que meu orientador é autoridade mundial no assunto, e (3) via programa de pós-graduação, em que vou concorrer com outros profissionais com CVs e históricos escolares de graduação e mestrado; e em que eu também tenho boas chances, já que consegui primeiro lugar na classificação de mestrado pelo mesmo método. Ou seja, sem bolsa de doutorado eu não fico.
[só mais uma atualização: acabei de receber um email do meu co-orientador, que resumida, mas não explicitamente diz que eu já vou ter outro aluno de IC pra co-orientar enquanto estiver no doutorado, ou seja, CV potencialmente mais recheado, tendo mais chances de passar em concursos públicos...]
Pra finalizar, a própria separação forçada entre mim e a Di dentro de menos de uma quinzena. Eu não vou precisar ter força pra destrancar a porta, como eu escrevi há uns dias, já que a carreira dela vai fazer com que fiquemos literalmente um oceano de distância. Eu não vou passar pelo capachismo forçado, ficando a lição do mesmo jeito - agradar é uma coisa, ser passivinho é outra. Sem sofrimento.

Resumindo tudo, minha vida foi fácil demais até agora. Eu poderia ter saído o pior dos mimados, grazadeus eu não sou. Mas uma coisa eu peço: deixem que a minha vida dê um pouco errada.

Cansei de jogar no easyEu quero um desafio de verdade.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Vira homem!

Em mais uma das minhas crises, eu quase contei pros meus pais do que se passa. Desde a péssima convivência com o Carlos (que, pra ele, é indiferente), passando pela sensação de derrota ao ouvir incessantemente o nojo dos meus colegas quando surge o assunto "trabalho" na roda, e eu tento participar da conversa; até mesmo de tudo o que eu passei nos tempos de colégio e nunca contei. Nem pros meus irmãos, talvez nem mesmo aqui.
Escrevi a tal da carta no computador, guardei, mas não imprimi. Meu plano era esconder a carta de modo que Maria*, minha mãe, encontrasse facilmente. Na embalagem do presente de aniversário dela, que foi sexta-feira passada.
Achei golpe muito baixo, e não executei esse plano.

Daí, esses dias, estávamos almoçando aqui em casa. Havia todo um contexto sobre um novo acontecimento tipo este, mas o assunto se encerrou assim:
- Sabia, Zé*, que todas elas, a Juliana, a irmã dela e a mãe dela 'faz' terapia? - disse Maria, falando da namorada do meu irmão Gabriel.
- É? - respondeu meu pai, desinteressado.
- Pois é. Outro dia eu vi ela comentar não sei o quê do terapeuta. É uma fresca mesmo!

O assunto continuou, mas um zunido agudo e ensurdecedor alfinetava meu ouvido. Latejava.
"É uma fresca mesmo" ecoava no vazio do meu peito.

Até perdi o apetite. Dissimulei, engoli em seco, peguei a louça que usava e saí da mesa da copa. Não consegui mais ficar ali. Quer dizer, ela "é uma fresca mesmo" por fazer terapia? Então você tem um filho que já cogitou ser fresco, le savez-vous ? Pior: várias vezes ele cogita sê-lo. Ainda mais nos últimos meses.

Jamais eu teria espaço pra conversar com meus pais sobre isso. Os dois são matutos demais pra compreender. Terapia que nada, iss'é falta dum cabo de enxada!

Sentir solidão mesmo numa casa cheia que nem essa? Mas cê tem de tudo, não tem porquê.

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Segunda paulada do dia: a Rosana*, mãe do Carlos, me ligou no celular, sendo que nem em São Carlos estou. Desesperada, atrás de uma chácara para reservar para a formatura. Detalhe: alguns meses atrás, passei um papel pro Carlos com o contato de várias chácaras, valor aproximado, quais são legais, o que eu não gostei nelas, etc.

Como eu não tenho o email da Rosana, expliquei a situação pra minha mais recente colega de apartamento, Priscila, e perguntei se ela tinha. Aproveitando a viagem, perguntei também sobre uma coisa que estava me incomodando:
- Não sei, Pri, mas me pareceu que o Carlos tava meio irritado comigo, já que eu reservei chácara e nem dei moral pra ele...
- Ah, Gringo, abstrai as bravezas do Carlos... ele tá estressado por conta do TCC, porque ele deixou pra última hora, e tá desesperado porque as simulações não estão dando certo (...). Se ele ficou puto com o negócio da chácara, acho que não deve ter sido com você, e sim com ele mesmo, que não correu atrás (...). Pode até ver que ele pediu duas semanas de férias antecipadas na empresa (...)

Tá bom, Pri, vou fingir que acredito no motivo dessas férias. Assim como você.

Eu disse que entendia um pouco do estresse dele, por mais que eu saiba que a culpa é toda de sua desorganização com prazos, mas contei que não é de hoje que eu estou mal com isso.
Sim, contei. Não mostrei, é claro. Por razões óbvias.
Incrivelmente a gente mostrou uma sintonia de pensamentos - ele não sofreu muito na vida, a Rosana nunca foi de falar não pra ele, ele não é nem um pouco humilde, etc etc. Depois, ela adicionou a isso o clichê do "gostar apesar de, e não por causa de", e reservou.
E como toque final da receita...

- Ah, não guarda coisa ruim pra você não... se chateou? Manda tomar no cu na hora mesmo! Depois fica tudo certo e a vida continua (...). Por isso que prefiro amigos homens: rolou um atritozinho, manda tomar no cu; depois de uma semana tá tudo certo! Mulher não, já pega birra pro resto da vida e nunca mais se fala!

Traduzindo: vira homem, Gringo!

"Vira homem."

"É um fresco mesmo."

Eu não entendo! "Homem" (haja aspas!) não tem direito de não ser sincero a ponto de ferir, tem que falar na lata mesmo. Não tem direito a se sentir só a ponto de cogitar terapia, isso é coisa de gente fresca.
Daí os outros perguntam se eu sou gay.

E é ridículo eu querer "virar homem" (cês entenderam, tentar me comportar como esperam de um "homem") nessa altura da minha vida.

Depois eu surto (não no sentido que a gente usa vulgarmente) e ninguém sabe o porquê.
Depois eu faço bobagem e ninguém sabe o porquê.

domingo, 6 de setembro de 2009

Reconhecimento

Resolvi começar esse diário hoje por ser uma das maneiras com as quais eu posso conversar comigo mesmo. Sim, pois não acho que algumas pessoas, pra não falar a maioria, entenderiam o que me motiva a começá-lo.
Hoje, eu dirigi pela primeira vez após eu ter conseguido a habilitação. Carro do meu irmão Gabriel*: um Citroën C3, motor 1.6, direção elétrica, e tudo mais. Só pra comparar: para fazer as aulas na auto-escola, eu usei um Fiat Palio 1.0, direção mecânica, e nada mais.
Eu estava indo ao supermercado com meus pais. No caminho até lá, tem um morro que acho que era mais fácil falar em escalar o morro do que subir. Precisei reduzir a marcha para ganhar torque. Claro que isso tinha que dar errado. Os giros do carro foram a assustadores 6000 rpm. E nada de o carro ganhar “força”. Tudo porque eu errei uma pisada de pedal.
Na volta, deixei o carro desligar quatro vezes. Seguidas. No semáforo. Num cruzamento com uma avenida. Eu já estava mentalmente rogando pragas àquela embreagem baixa.
– Você tem que deixar de ser menos estressado, não só no trânsito – disse minha mãe.
Todo mundo, grupo no qual eu me incluo, ODEIA com todas as forças que alguém fique falando enquanto se dirige. Agora junte o fato de ser estréia da minha CNH. Ingrata a hora em que eu falei pro meu pai que eu dirigiria.
– Mãe, deixa eu dirigir do meu jeito, por favor – eu disse, tentando soar gentil.
Chegando em casa, deixando o carro desligar mais uma vez, claro, minha vontade era de rasgar a minha CNH em mil pedaços e atear fogo nas últimas migalhas que sobrassem dela.
Nunca me fez falta ter um carro, já que “tenho cinco motoristas a minha disposição”, como já diria o sarcasmo sempre à ponta da língua de Paulo*, meu irmão mais velho. Outro motivo é esse: não que eu seja um ecochato, mas eu sempre vou à universidade de ônibus, a pé ao supermercado, etc. Não faz sentido eu ter um carro. Não é uma necessidade, e sim um gasto que, agora, não vale a comodidade.
Agora junte essa péssima experiência.
Eu não quero dirigir mais.
'Tá, e o que tem a ver o fato de eu ser um péssimo motorista habilitado com o que me motiva a escrever?
Depois de não ter satisfeito meu desejo piromaníaco para com a minha CNH (para a felicidade do leitor), eu desatei a chorar isolado no quarto pela minha imprestabilidade, questionando minhas qualidades segundo pessoas ao meu redor dizem: inteligência? Ah, informação está à disposição a todos, resta que elas se disponham a obtê-la. Gentileza? Não mais do que minha obrigação. Prestatividade? Tudo o que eu tenho sentido são as solas dos sapatos dos folgados.
Isso explica a minha situação de “bevidade” (não esqueci o “r”) aos 20 anos: sou bonzinho demais.
Tudo se encaixa tão perfeitamente para os outros, mas por que não para mim? Não sei dirigir, mesmo sendo habilitado. Não sei me relacionar com segundas intenções com pessoa alguma. Não enxergo reconhecimento pelo que eu faço nem para mim, nem para os outros. Compensa ser assim?
Compensa viver assim?
Mente de pessoa deprimida é complicada. Pessoas normais com certeza diriam “isso é uma bichONA".
Deprimida? Sim, levou-me tanto tempo para reconhecer a minha doença. Nunca ficou tão claro quanto agora.
Antes, eu julgava ser muita fraqueza de espírito gastar dinheiro com psicoterapia, pois eu tinha um preconceito muito grande contra a profissão do psicanalista: uma pessoa que se julga acima do céu e da terra e que fica lá, resolvendo sudôku na prancheta e cronometrando o tempo da sua sessão, porque a sala de espera está “cheia de gente louca”, enquanto você se lamuria, rebaixado à posição do divã.
Eu sempre tentava, sem sucesso, lutar contra esse problema. Resolvia vez ou outra, mas alguns dias depois, lá estava eu, de novo, down.
O que eu tenho a perder, não é mesmo?

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Eu menti

... mas não porque eu sou mentiroso. Explico.

Sabe qual é a coisa mais apaixonante? É quando a pessoa dá liberdade pra que a gente a descubra, mas a pessoa sempre tem uma surpresa. A gente adora o desafio de desvendar o mistério que é aquela pessoa. Não falo só por mim, que sou homem. Mulher também gosta disso.

Daí todo mundo distorce esse fato. Fala que mulher gosta é de homem cachorrão. Ou que tem que esnobar, sim. Ou, conforme o Gabriel me disse, quanto mais você mostrar que ela pode te perder a cada segundo, mais ela vai querer ficar perto de você. Mulher não pode ter segurança no relacionamento, tem que viver na insegurança.

Um absurdo!

Há um abismo entre ser esnobe e ser misterioso. O esnobe desrespeita, o misterioso é um gentleman. Mas nem por isso é um gentleman óbvio, forçado, friend-zoned. Versão masculina da "boazinha", da qual já vou falar daqui a pouco. Ele faz galanteios naturais, que poderiam ser feitos a favor de qualquer mulher, mesmo sem interesse sexual. Ou mesmo com outro homem.
Vai parecer falta de modéstia da minha parte, mas eu geralmente abro a porta do elevador do meu prédio primeiro, saio e seguro a porta pra todas as pessoas. Senhoras, senhores, moças, casais com filhos, whoever. Só não faço isso com marmanjo. Não porque eu não queira, mas porque infelizmente gera má interpretação. Coisa de brasileiro, fazê o quê.

Enfim, voltando.

O esnobe tem um ego minúsculo, apesar de parecer exatamente o contrário. Pior de tudo é que ele sabe identificar quem tem ego pequeno também, mas que o deixa bem claro: a menininha. A menininha - ou, conforme certa autora (que já citei aqui) já definiu, a boazinha. A boazinha cede demais, a boazinha é... boazinha. Simples assim. Todo mundo conhece no mínimo uma. 
Ressaltando: não é necessário que a boazinha seja aquela timidazinha que não conversa com ninguém, que tem vergonha até de palavrão que falam perto dela. Ih, o que eu conheço de gente que se acha "independente", mas tantas vezes atropela a própria vontade (e é exatamente isso que define a boazinha)!
Tem boazinha que usa Twitter pra contar tudo da vida dela. Se brincar, ela conta até quando vai cagar, porque acha que tem um interessado por perto. E sempre tem um interessado:  o clássico friend-zoned, que a segue. [essa vírgula fez total diferença nessa frase, cuidado ao ler!]
Tem boazinha que usa Truth box no Facebook e fica mostrando quando alguém dá uma cantada nela. E "acha ruim" - e declara publicamente - que ficam mandando. Coitada. Coitado também do cara que mandou a cantada.
Tem a boazinha que é biscate. Tem a boazinha que é santa-do-pau-oco. Tem várias boazinhas, todas agradam mais ao outro do que a ela própria.

Pro esnobe, encontrar uma boazinha é incrível. É a oportunidade perfeita da foda garantida. Coitado, vivendo outra ilusão tão grande quanto seu alter ego, a boazinha. Bem que se merecem mesmo.

Já o misterioso tem amor próprio, tem vida própria. E sabe muito bem que um sábado à noite em casa lendo um livro repetido, escutando umas músicas velhas (mas que ele adora) é tão prazeroso quanto uma balada. Diferente, é claro, mas tão bom quanto. E se por um acaso rolar alguma coisa na balada, ele está lá, sentindo cada centímetro daquela pessoa, tentando descobrir como é a personalidade da pessoa pela terceira nota do perfume dela.
O misterioso beija de olhos fechados, pois assim aguça os sentidos. O esnobe beija de olho aberto pra olhar pros peitos da gostosa que tá passando ali do lado. Completamente sem foco e perdendo a ótima oportunidade que está ali nas mãos dele, literalmente.

O misterioso não "pega". Está com aquela pessoa porque quer. O misterioso sabe que mais do que uma por noite já é exagero, porque sabe que desvendar uma pessoa só já é complicadíssimo. Mas adora desvendar pessoas. Quando estiver, esteja, já diria uma música. O esnobe, rá! O esnobe não perde nenhuma micareta, coitado.

Uma coisa é esnobar. Outra é ser misterioso.


Eu menti. Menti esse tempo todo porque eu desvendei a Diana muito rápido. Ela é boazinha. Acabou a graça. E eu não quero foda garantida, não sou esnobe, oras! Claro que é bom, mas eu não quero.

Eu quero desvendar.

... e como é que se fala tudo isso sem chocar qualquer boazinha? Eu ainda não sei e preciso aprender urgentemente.

E o pior de tudo é que, como toda boazinha, ela vai insistir. Não quero dizer que ela não possa manter contato, o que ela tem feito. Acho válido, a gente se conheceu bem demais. Mas "saudade de sentir seu corpo em cima do meu", ou "o que eu faço pra te esquecer?", ou "sou teimosa e intrusa" e afins? Poxa, você com a oportunidade de conhecer uma cidade maravilhosa que deve ser Madri! E você preocupada com sentir saudades de mim? Pra mim, isso não é teimosia, e sim falta de amor próprio!

Mas vai falar algo que nem chegue nesse ponto, mas que tenha a ver com isso...! Cês bem viram isso esses dias.

Não tem jeito de falar isso. É impossível.

E por isso eu menti.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Já diria Montesquieu

Não consegui raciocinar de novo, logo depois do banho. Mas não de nervosismo, e sim de êxtase.

Tomamos café numa padaria perto da casa dela. Infelizmente eu tivera que ir embora porque tinha um experimento pra começar (pois é, num domingo!). Fazer o quê.

Enquanto preparava o material para começar o experimento, um mal-estar enorme. Sensação de culpa, não sei por quê. Bom, na verdade, sabia sim...
Quase passei mal no laboratório. Pior (ou melhor, não sei) é que eu estava sozinho - o departamento inteiro vazio. Começado o experimento, voltei pra casa e imediatamente peguei o celular.

- Sabe, Di, eu tô um pouquinho preocupado.
- Por quê?
- Ah, cê sabe...
- Imagina, eu me previno! Não quero filho agora de jeito nenhum! Se eu não tivesse tomando pílula, eu certamente não teria feito nada disso... não se preocupe.
- É, realmente, foi um risco. Mas foi um risco que valeu a pena...
Risinhos dos dois lados.
- Foi arriscado, mas da próxima vez, venha preparado! - disse, em tom de brincadeira com fundinho de verdade.
Próxima vez? Tá bom, então.

Enquanto o experimento que eu começara no domingo acontecia, fiquei revisando artigos, mas com a cabeça longe, longe! Eu "lia" sobre controle de processos de secagem, mas nem os meus pensamentos estavam controláveis. Foco, meu fi'!

Finalzinho da tarde, estávamos o pessoal do laboratório, o Bruno* e eu jogando conversa fora:
- Porque esse aí ama! - disse Bruno*, apontando-me com o queixo.
Gargalhadas a mil.
- E então? Você tem tido contato com ela? - Alê me perguntou.
Só pra fazer graça, deixei o silêncio sepulcral falar por mim por dois segundos. Parada dramática. Contato? Até demais, diria eu. Minha resposta de verdade?
- Uai... - e uma coçadinha na nuca.
Novo estouro de gargalhadas.
- Como assim, "uai"?! Quer dizer então... vocês têm conversado?
- É... 

Vogais são comigo mesmo.

Cheguei em casa, e resolvi dar uma ligadinha. Ops, mensagem às 10h da manhã?
"So queria te falar que gostei mt dessa noite e que pode ficar tranquilo qto ao que me falou agora. Bjim"

Apesar do fail e da pressa? Bom começo, champion!

- Passei em frente ao seu laboratório, mas estava tudo apagado. Você estava lá hoje cedo? - perguntei.
- Não, é que, como eu estou escrevendo, normalmente eu fico em outra sala, do outro lado do corredor.- esclareceu Di. - Fiquei preocupada, você não me respondeu a mensagem.
- Desculpa, só fui ver agora há pouco. Tudo bem, passou. - eu disse. - E então, como foi seu dia?

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A sala onde eu começo os experimentos é de frente à sala mencionada. Hoje cedo, quando eu fui pegar as amostras, passei em frente a sala dela e voltei, dando uma leve pescoçada para trás pra conferir se era aquela mesma. 

- Então é aqui que você fica.
- Entra, entra; pode entrar.

Di então me convidou pra uma festinha que a Tânia* estava organizando, em comemoração à defesa de mestrado dela. Olha só, no final das contas, pode ser que a mensagem seja de verdade mesmo.

No final das contas, eu tô sentindo que tá evoluindo. Quem sabe a gente não oficializa na festinha da Tânia?

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Mais tarde, no clássico intervalo do café da tarde no meu laboratório, alguém trouxe bombons. Justamente quais?
- Não, obrigado. - eu já havia comido umas frutas logo antes.
- "Serenata de amor". - leu Bruno* no embrulho dos bombons. - Se bem que cê nem precisa disso, né? Porque esse aí ama.
De novo? Sacre bleu!
Pior de tudo foi que eu contara, algumas horas antes, que eu havia sido convidado à tal festinha.
- Ah, mas vocês não estão sabendo da maior! - gritou Daniela*, a quem eu havia contado por acaso do convite. E ela revelou o fato.
- Vai veeeeeendo! - Alê, com mais um dos seus bordões...
- Investe na Di, ô! - sugeriu Daniela.

E mais e mais piadas a meu respeito, a nosso respeito.

De repente, Bruno* me solta uma bomba:
- Nada, nada ela deve ser quase 10 anos mais velha que ele. O quê, ele tem 21?
- Vinte e dois - respondi num tom sério e grave.
DEZ ANOS?! Eu sabia que ela era mais velha, mas eu estava chutando no máximo uns cinco.

Tá, dez anos também não é. Enfim, naquela hora, eu me lembrei de uma história antiga, que nem contei aqui. Sobre a Juliana, minha cunhada, já citada aqui no blog, por sinal. Ela é mais velha que meu irmão mais velho, que hoje tem 26 anos, mas namora o Gabriel, um dos gêmeos, 24. Ela deve ter lá seus 27, 28, não sei. Ouvi dela uma conversa assim:
- Se a gente não casar até eu ter uns 30 anos, eu termino!
E me ecoou na cabeça a ameaça da Juliana*, porém vinda de oooutra pessoa num futuro não muito próximo. Desanimei.

Poxa, eu tenho só vinte e dois anos! Por mais rápido que tudo isso tenha sido, não preciso me amarrar desse jeito agora!
Ô, japonês, abre o olho! Quem é que tá falando em casamento agora? Laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même. Já diria Montesquieu.
Mas existe o risco.
E daí?! Por causa disso, então, cê só vai "conhecer" pessoas da sua idade? Além do mais, cê nunca conviveu com pessoas da sua idade, todas sempre foram no mínimo um ano mais velhas; o que, aliás, era um caso raríssimo, já que sempre eram mais de dois anos, na média.
Sim, sim, eu sei. Vou deixar o mundo ir por ele mesmo, então.


Liberdade ao mundo pra que eu talvez me prenda. Irônico, não?